Não é fácil envelhecer com certa
dignidade. O fantasma dos 40 instala-se no casarão mal-assombrado, resta o compartilho
do domicílio. Porém, é o espectro tal qual Pedro Malazarte. Aconteceu comigo
há alguns anos. De Brasília para São Paulo, visitar a mama. Toca o celular. Na
linha, meu amigo Jaceguai, apelido Tritongo:
“Tô comprando ingresso pro Skol Beats, borá?”. “Buenas, sei lá, vamos”,
respondi sem maiores reflexões sobre a idiotice futura. Pelo menos, a bela
Luísa estaria lá. Sempre uma oportunidade. O drama começa no carro do Tritongo:
seis no Uno Mille verde metálico. Estacionamento há uns cinco quilômetros do
Sambódromo, o megapoint da música eletrônica. E frio, muito frio.
No lugar, um tal de “tio, tem
cigarro?”, “o senhor sabe onde fica a tenda do psycho trance?”. Não, o tio não
tinha cigarro. O senhor também não tinha a menor ideia da tal tenda. Aliás, até hoje não tem
a menor ideia do que é psycho trance. Queria ir embora dali. Não consegui
encontrar Luísa. Estava no lado direito do palco, onde Prodigy tocava
enloquecidamente Firestarter. O lado direito tinha, por baixo, umas 15 mil
pessoas. Eu, do lado esquerdo, com outras 40 mil em volta. Impossível encontrar
alguém.
Desisti. De Luisa, do psycho trance e aquilo tudo. Era umas 3h da
madrugada. Só queria ir embora. Onde estava Tritongo? Não atendia o celular. Os
seus quatro amigos também desaparecem pelas tendas e palcos. Às quatro e meia
da manhã, saco na lua, acho Tritongo agarrado numa mocinha. “E aí, camarada,
hora de ir, não?”. Num átimo de segundo, a resposta da jovem: “Vamos ver o sol
nascer”. Mais duas horas de sofrimento, ali, ouvindo Tati Quebra-barraco com o
hit Boladona: “Na madruga boladona, sentada na esquina. Esperando
tu passar...”. Boladão estava eu, quase 8h. Os amigos do Tritongo aparecem.
Quer dizer, três deles. O Pobre Loko estava desaparecido. Só o reencontramos no
estacionamento, 9h30. Bêbado, tinha perdido o celular. Praticamente um milagre
ter encontrado o carro.
No
caminho de volta, marginal Tietê, Pobre Loko põe pra fora quatro cachorros
quentes, 14 cervejas, quatro pingas, três churros e sei lá mais o quê.
Espremido num carro fedorento, morrendo de sono, chego em casa na hora do
almoço. Fim de semana findado, volto para a capital do País. Ainda na esteira do
aeroporto, o telefone toca. Meu amigo Epifânio: “Tô indo comprar ingresso pro
show do Ozzi, vamô?”. Com todo respeito ao velho gagá líder do lendário Black
Sabbath, mas prevendo ser outra artimanha de Malazarte por trás da voz rouca
de Epifânio, lasquei: “Declino, meu velho. Depois de uma certa idade, só show
da Sinfônica de São Paulo, pela TV Cultura”.
“ Não sei a origem do seu nascimento
no meu pensamento ele veio de marte
no meu pensamento ele veio de marte
Talvez ele seja de outro planeta
Pior que o capeta só fazia arte
Seu tipo gozado seu jeito manhoso
Ficou fabuloso por todas as partes
Seu nome completo não foi conhecido
Mas seu apelido é Pedro Malazarte”
Pior que o capeta só fazia arte
Seu tipo gozado seu jeito manhoso
Ficou fabuloso por todas as partes
Seu nome completo não foi conhecido
Mas seu apelido é Pedro Malazarte”





















