segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Da arte de trepar no mato (2ª edição)

Em geral, sou tradicionalista. Em questões sexuais, extremamente conservador. Não sou do tipo que gosta de transar em elevadores, parque de diversões, açougues ou aeroportos. Mas, quando a gente está começando uma história, geralmente faz qualquer bobagem para agradar a moça. Neste caso, ela tinha uma fantasia de transar no mato. Prá não contrariar e como gostava, de verdade, da mocinha, topei a experiência, inédita – e que seria a última para mim.

O primeiro passo foi procurar o lugar. Para garantir a privacidade, escolhemos um matagal distante uns cinco quilômetros da civilização. Fomos lá numa sexta-feira de lua cheia. Empolgados, fizemos todo o trecho da estradinha de terra, chegamos num lugar bem quieto e encostei o possante. Entramos na mata.Eu, encabulado, comecei a tirar a roupa. Ela, excitadíssima pelo cheiro do verde, já nua, me esperava encostada numa árvore parecida com um jatobá. Meio tímido e desacostumado ao vento frio batendo pela retaguarda, nem preciso dizer que o “wilson” não estava reagindo a contento. Mesmo assim, depois de algum tempo, consegui ajeitar o jontex size “G”. Como estava com a bandeira a meio-pau (desculpem o trocadilho infame), meu “jerry lewis” ficou parecendo o nariz de um tamanduá-bandeira. Mas tudo bem, deu certo e estávamos protegidos, como bem orienta o Ministério da Saúde e o Papa condena.


Então tá, os dois ali, eu e minha gata pelados na selva. Eu, Tarzan, ela Jane. Me aproximei da amada já para a posição nº 48 do kama sutra (mais conhecida por aqui como cata-cavaco). De repente, senti meu pé esquerdo queimando horrores, uma dor insuportável. É que eu tava pisando com gosto num formigueiro. Daqueles de formiguinhas bem pequenininhas, mas cuja picada (formiga pica ou morde???) dói para caralho. Pois é...Dei uns pulos, tirei a formigaiada do pé, que ardia para burro. Mas, já que estávamos ali, vamos terminar o serviço.

Quando ia novamente para cima da minha namorada ecologicamente tarada, vi dois olhões fixos de uma coruja buraqueira nos observando em meio à escuridão da noite. Aí o meu “mcgiver”, que tava só na meia-bomba, brochou de vez. A escuridão, que já era “escura” para caramba, pretejou ainda mais. A romântica lua deu lugar para pesadas nuvens e, ato contínuo, despencou um toró daqueles. Com um frio de lascar, brochado e com o pé ardendo, pedi desculpas para a mocinha (mentalmente estava a amaldiçoá-la pela ideia infeliz),vesti as roupas (molhadas) e clamei para irmos embora. Daí que a porra do carro ainda atolou na estradinha de terra. A moça assumiu o volante e fui lá, numa chuva dos diabos, tentar desatolar o carro. Obviamente, toda a força do Tarzan não deu conta da missão. Pelo celular, tivemos que chamar o auto-socorro da companhia de seguros. Os caras do guincho demoraram umas quatro horas para achar aquela quebrada onde tínhamos nos enfiado. Nem perguntaram o que fomos fazer ali no meio do mato de noite. Sei que só chegamos em casa às 9h30 da manhã, eu morto de cansaço, molhado até os ossos e com o pé doendo e inchado como uma bola de boliche. Agora, quando alguém me convida para algo parecido, o máximo que topo é colocar um vasinho de antúrios em cima do criado-mudo da minha cama.

Comentário do Cachorro Cansado: Post republicado (não revisto, tampouco ampliado) a pedidos e por falta de tempo e inspiração do autor para escrever novidades. Mas daqui a pouco as coisas voltam ao normal.

sábado, 30 de janeiro de 2010

O AMOR


"O amor é como a guerra:
fácil de começar , mas
muito difícil de terminar"

H.L. Mencken

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Uma noite em Canoa Quebrada

Anos atrás, estava em Fortaleza (CE), indo para Mossoró (RN), em companhia do Pequeno Wilson. De ônibus. No meio do caminho, a praia de Canoa Quebrada. Resolvemos conhecer. A ideia era passar o dia por lá, e voltar no final da tarde. Mas, ainda no coletivo a caminho do logradouro praiano, um argentino, dono de pousada, ofereceu um quarto. “Bueno e non custoso”, disse. “Unos alemoñes no vieram. Tiene uno quarto vago. Puedem quedar-se acá”, completou o simpático porteño.


De fato, a pousada era boa. Não tão barata, mas tudo bem. Por apenas uma noite dava a estadia. E Canoa Quebrada mostrava-se muito bonita. Passamos o dia na praia. Cerveja, quitutes praianos, essas coisas. Fizemos amizade com umas turistas gringas, muito interessantes. Francesas. A coisa prometia, apesar da dificuldade de comunicação. Na época, a “expressão” mais longa que conseguia pronunciar era “Charles Aznavour”; o inglês estava no verbo to be. E a segunda língua do Pequeno Wilson era o tupi-guarani.

Final da tarde, pôr do sol. Hora de nos recolhermos aos nossos aposentos. Dar um trato no visual e reencontrar as moçoilas. Porém, ao voltar para a pousada do argentino, a surpresa. Nossas coisas num canto do saguão, o gringo, cheio das desculpas: “Os alemoñes (sics) quedaran ajora miesmo”. Na hora, comecei a lembrar da rivalidade entre Brasil e Argentina. “Não se pode confiar num argentino”, pensei. Mas o “Caniggia” ali, solícito, afirmou que arrumou um “lugar” para nós. Topamos. Naquela hora não tinha qualquer tipo de condução para irmos embora. Sem falar do encontro marcado com as gringas.

O lugar era um quartinho, tijolo aparente (mais para sapé). Banheiro era uma cabaninha do lado de fora e banho, só de caneca numa torneirinha do quintal. Luz, nem em lampião a querosene. Uma vela, dada pela proprietária do cafofo, era o que tínhamos para nos orientar por ali. “Bom, o que não tinha remédio, remediado estava”, repetia o Pequeno Wilson. Ok, chega a noite, estrelada. Vamos encontrar as moças. Tudo bacana, uma pizza razoável, meio alcoolizados pelas várias cervejas. Clima romântico no ar, nós, do Brasil, em congraçamento com a pátria amiga francesa.

O Pequeno Wilson, esperto, sai logo com a gringa dele. Vão para a pousada “decente”, onde estavam as gurias. Eu e a outra, aquela pegação juvenil na praia. Transeuntes inconvenientes, contudo, impediam o “remador de quebrar a canoa”. Solução, ir pro cafofo, nosso criadouro de barbeiro (o da doença de Chagas). Tentei explicar para a moça fina que o lugar era tosco, mas não tinha alternativa. “Daria um ar primitivo, rústico e romântico”. Pelo menos tinha o lance do à luz “da” vela. No cômodo simplório, ia começar a peleja, a moça resolve dar um pulo no “toilete” externo. Expliquei como era, onde era e porque não deveria ir. Mas não tinha jeito, ela “precisava” ir. Ok. Acompanhei a moça e voltei para o cafofo.

De repente, gritos - totalmente incompreensíveis - na língua de Balzac. A moça some, correndo pela escuridão, desaparece pelo vilarejo de Canoa mundo afora. O motivo: um porco. Gigante, preto e gordo. Passou bem na frente da porta do banheiro, justo quando a guria saía do wc. Confesso, também fiquei apavorado na primeira olhada para o animal. “Boitatá, curupira, chupa-cabra...que porra é essa?”, questionei-me, até dar conta que era um corriqueiro – porém, enorme, gorducho e feioso – suíno. Já tínhamos visto alguns porcos circulando pelas redondezas, mas nenhum no quintal da nossa choupana. Ainda mais daquele tamanho...parecendo um javali selvagem.

Refeito do susto, fui atrás da minha francesa. Depois de uns trinta minutos de procura pelo vilarejo praiano cearense, encontrei a moça na sacada da pousada onde estava com a amiga. Tinha lágrimas nos olhos e soluçava. Tava abraçada com a compatriota. Pequeno Wilson não entendia nada. "Ué, não tem porco na França? ", perguntou. O lance deles, Pequeno e seu par, também ficou prejudicado pela confusão. Lerdo que era, mal passou das preliminares.

Expliquei o ocorrido pro amigo. Até tentamos reatar o processo acasalatório. Sem sucesso, não queriam mais nada conosco. Frieza total européia. Achei até compreensível. Nos despedimos. Voltamos para o bangalô. O porcão ainda desfilava pelo quintal da casa. Driblamos o bicho, entramos na “nossa” própria pocilga. Sono ruim, barulhos suínos do lado de fora, pernilongos e outros insetos que nem me atrevo a dizer do lado de dentro. Enfim, uma noite dos infernos na celestial Canoa Quebrada. No noutro dia, bem cedo, fomos embora. Rumo a Mossoró. Pequeno Wilson, palmeirense, dava risada do caso. Eu, corinthiano, só queria chegar logo na valorosa Mossoró, a cidade "de cabra macho". Até afugentaram Lampião e seu bando.

PS: Ainda quando em Canoa Quebrada, eu e Pequeno Wilson fizemos umas trancinhas no cabelo. Tipo pré´-tererê, que viraria moda tempos depois. O suficiente para nossos anfitriões mossoroenses comentassem, sem qualquer pejo: “bastou uma noite em Canoa pros moços paulistas voltarem esses viadinhos aí”.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A namoradinha do amigo meu (2ª edição)

*Nota publicada originalmente "faz tempo...". Como o Cachorro Cansado está absolutamente sem tempo, e tampouco, sem inspiração. Vou republicando alguma coisa para você.

As músicas que mais gosto do “Rei” são aquelas da jovem guarda. Noutro dia comprei um CD dele daquela época (que não era a minha, ressalto). Uma pechincha, registre-se. E assim como aconteceu com o Roberto Carlos, eu também já amei loucamente a namoradinha de um amigo meu. Eu devia ter uns 8 ou 9 anos, estava na terceira ou quarta série primária. Ela era lindinha, chamava Carla. Mas era namoradinha do Carlos, o Carlinhos. Era meu amigo. Na verdade, um coleguinha. Para valer, um conhecido...sinceramente, eu queria que o Carlinhos e tudo mais fossem para o inferno!!! Sofria horrores pela Carla. E ela só dava atenção pro Carlos. As décadas passaram, nunca mais tive notícias da Carla e nem do Carlos...mas até hoje lembro deles quando ouço essa música do Roberto...Carlos.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Festa na faculdade

Das recordações de meus negligentes tempos de universitário, as melhores eram as festas na USP. Às sextas, várias ao mesmo tempo, madrugada adentro. Maratonas festivas: as da própria História (meu curso), naquele pavilhão com rampas de rodoviária; as da Filosofia/Ciências Sociais, ao lado das promovidas pelo pessoal da Letras. E, por fim, as festecas, claro, na ECA. Eu e os comparsas ficávamos de lá para cá, de festa em festa.

Numa destas conheci a Luciana, do curso de rádio e TV. Lindinha, long blonde hair e smile face. E, azar meu, namorada de um sujeito também da História (não lembro o nome do cara, chamamo-lo então de “Hobsbawn”). Numa festa da Sociais, ela estava lá, desolada, sentada na escadaria da faculdade. Tinha brigado com o “Hobsbawn”. Sorte minha.

Eu, sem saber de nada, vi entristecida a moça de sorriso fácil, dei um rasante. O Falcão Maltês aqui fazia amizade fácil naqueles tempos – hoje já não é mais bem assim, uma pena. Empatia mútua, eu e Luciana. Percebi ali que “Hobsbawn” começava a perder o bonde da história. Mas, sob efeito das groselhas e outros aditivos intoxicantes, esqueci de pegar o telefone da minha Helena de Tróia - naqueles tempos celular não aparecia nem em filme de ficção científica.

Deixei um recadinho, pueril e romântico, no quadro de avisos da faculdade da mocinha. Houve até certa comoção entre as colegas dela. E ela, receptiva, retornou meus clamores. A partir de então, “Hobsbawn” já era.

As conversas nas dependências da FFLCH é que o "Hobsbawn" tava bravo, vociferava pelos cantos como um visigodo bêbado. Ia tomar satisfações com o “ladrão de corações” – no caso eu. Numa outra festa, desta vez na ECA, ligeiramente embriagado (again), dançando com os comparsas. E, claro, com minha Penélope. Daí que um deles, o “Le Goff”, empolgado com o punk do Sex Pistols, acerta uma cabeçada em mim. A lateral da armação dos óculos do “Le Goff”, redondinhos estilo John Lennon, me cortou a testa. Talho pequeno, no momento nem percebi. Dançava e um fiapo de sangue escorria. Luciana, com um lencinho, limpava de tempo em tempo meu rosto.



Naquele momento adentra o espaço dançante, o centro acadêmico da ECA, outro comparsa, o “Levebfre”. Viu aquele fiapo de sangue na minha face. Historiador das mentalidades que era, mentalizou encrenca. Sabedor da minha rivalidade com “Hobsbawn”, imaginou ter havido entre nós um choque de civilizações. Todo mundo meio trololó, não lhe ocorreu nada de estranho ao me ver dançando e sangrando.

O “Levebfre” saiu então atrás do “Hobsbawn” – a velha rixa com os marxistas. “Lefebvre”, meu chapa, era um educado grandalhão. Gente tranqüila e boníssima. Mas, sob efeito de destilados de origem duvidosa, “não aceitava injustiça social”, dizia sempre. Caçou meu rival por todas as festas do campus naquela noite de sexta. Encontrou o figura na da própria História, nossa base. Por sorte, não foram às vias de fato. “Levebfre” só o “assustou” um pouco, contou depois. Algo como um jacobino diante de um nobre francês, um bolchevique perante um aristocrata russo.

Pelo jeito, o apavoramento – ou a “era do terror (ou das revoluções)” foi intenso para o pobre “Hobsbawn”. Nunca mais o vi até o final do semestre, que também largou do pé da Luciana. Parece que pediu transferência de curso, sei lá. Eu e Luciana namoramos durante uns seis meses. Depois, como na música de Chet Baker, “the thrill is gone”. Ficamos bons amigos. A rotina festiva seguiu até me formar. E, por via das dúvidas, mantinha sempre o “Levebfre” informado dos movimentos. E dançando a distância segura do “Le Goff”.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Match.com from Cabul

Comentário do Cachorro Cansado: Eu já escolhi minha preferida. A Tajine 501...adoro vermelho, a cor da paixão.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O violinista e o sem-noção


Sábado na Benedito Calixto, São Paulo. Logo depois do Natal, movimento bem mais tranqüilo que o normal. Estou no aguardo do amigo Borges para almoçarmos. Sento-me na pracinha. Em seguida, chega o simpático seu Sérgio com seu violino e partituras. Trocamos uma idéia. Ele conta que é soldador de profissão, toca para faturar uns trocos, geralmente aos domingos em Embu das Artes. Músicas antigas. E quem pede uma melodia ganha uma “profecia” de brinde. O som do violino do seu Sérgio é bastante agradável, combinando com as barraquinhas de antiguidades de todo tipo, artigos vários para bicho-grilagem e etcs.

Ao nosso lado, duas mocinhas cantarolam as músicas vindas do violino do seu Sérgio. Uma outra, bem mais velha – gênero idosa, extravagante meio maluca - de roupas coloridas combinando nada com nada, senta próxima de nós, também começa a cantar. Um pouco fora do tom (e aparentemente do juízo também) e trocando um pouco as letras, no estilo Vanusa e o Hino Nacional.

Chega um rapaz, ar de soberba e camisa preta, nas costas uma letra de música do Cartola – não lembro qual. Pede licença para tocar o violino do seu Sérgio. Ignora as partituras de papel que guiam as melodias do seu Sérgio. O sujeito diz que é da “era digital” e puxa do arquivo do celular a sua própria partitura.
Pede ao seu Sérgio um sei-lá-o-quê para passar na vareta do instrumento. O simpático seu Sérgio comenta algo com o pretenso músico. Num gesto de extrema educação, o bacana comenta: “Quando o senhor está lendo a partitura, não o interrompo”. Pela pose, pensei que estivesse próximo de um Joshua Bell. Uns batuquinhos nas cordas, troca o violino de mão, começa a apresentação. Para espanto dos presentes, o som que emergia dali parecia uma mistura de guinchado de carcará com gatos trepando no telhado.

Daí que a mulher das roupas extravangantes solta: “Devolve já o instrumento para o dono, que ele tá ganhando o dinheirinho dele e você é ruim prá caralho”. As outras duas moças ao lado completam: “Isso mesmo, deixa o senhor tocar a música que a gente pediu”. Meio constrangido, mas sem querer demonstrar, o sem-noção devolve o violino para o Seu Sérgio. Aplausos gerais na praça. Ressalte-se que para o gesto devolutivo, bem entendido. Alguém ainda fala pro nosso simpático violinista seu Sérgio. “O senhor não devia deixar ele ficar com seu violino daquele jeito”. E ele, com aquela tranqüilidade toda: “Eu sei, queria pedir de volta mas fiquei com medo que fosse louco e quebrasse meu instrumento”. Pois é, não duvido que fosse.

Seu Sérgio retoma suas melodias. A harmonia volta ao ambiente. Deixo lá uma graninha no fundo de veludo azul da caixa do instrumento, ao lado de uns trocos deixados por outros. O Borges chega. Me despeço do seu Sérgio, peço meu provérbio (afinal, Ano Novo ta aí) que dizia: “Ao sair de casa, pense no que vai fazer. Ao voltar, examine o que fez”. Tudo bem, não é dos “provérbios” mais auspiciosos. Mas o tal sujeito sem-noção bem que podia pensar no que faz por aí. E, de qualquer forma, abraços pro seu Sérgio, e um feliz Ano Novo pra você, querido(a) leitor (a).

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Ano Novo em Trindade (final)

Depois da madrugada de Ano Novo no atoleiro, manhã de empurra carro no barro. Chegamos num camping. Montagem de barraca. Não literalmente, óbvio. Feio, sujo e malvado, o Cachorro Cansado não tinha condições figurativas de “armar a barraca” nem que fosse para dormir com a miss Trindade. Diante da minha dificuldade com a engenharia da coisa, uns vizinhos ajudaram – aliás, da mesma turma que um deles se atracou com a Maysa na noite anterior. Mais moral pro sujeito. Menos dois pontos para mim. De qualquer forma, o feriado prometia. Muita gente, festa, sol (??!!) e praia. Barraca multicor armada – literalmente, desta vez. Procuro o banheiro. Fila quilométrica, serpenteando entre as barracas. A necessidade incontrolável de “enviar um fax” pra casa, dizendo prá mama que tava tudo bem (naqueles tempos, celulares não existiam nem na série Jornada nas Estrelas – e a expressão não tem mesmo exatamente esse sentido). Abandono a fila, envio o documento detrás de uma moita mesmo, à beira da praia. Loira gata que caminhava por ali não me viu “obrando”, mas reparou quando deixei mictório arbustivo, rosto suado, e expressão aliviada.

Fila do sanitário ainda imensa. Imagino o cheiro. Quantidade de germes superior a de banheiro químico em show do AC/DC. A boca, gosto de meia com cueca. Escovo os dentes com um copinho de “prástico” e garrafinha de água Lindóia, sem gás. Os cabelos, bem, deixemos para lá a situação oleosa das madeixas do protosurfista paneleiro. Higiene pessoal resolvida, tomar café. Nada como um gostoso pão duro com manteiga derretida e k-suco campestre, sabor morango.

Hora da azarão na praia. Certo? Errado. Chuva, muita água caindo do céu cinzento. Todo mundo nas barracas. Maysa chega com um novo amigo. O sujeito, chapadão logo cedo, violão em punho, entoa: “Enquanto você se esforça para ser, um sujeito normal, e fazer tudo igual, eu do meu lado aprendendo a ser louco...”. Olho para Maysa, seus olhos apaixonados pro Raulzito litorâneo. Jujuzinha, empolgadíssima, canta junto. E emenda: “Controlando a minha maluquêis, misturada com minha lucidêiz, VOOOUUU FICAAAAAR...”, etc etc.

Praticamente o dia todo na barraca, cantado todo o repertório do Maluco Beleza, entrecortado por “Andanças” e uns “Forró Lunar”. Final da tarde, noite caindo, pára a chuva. Caminhando na areia úmida, conheço Marisa, morena, black eye peas, beautiful body. Combinamos nos encontrar mais tarde. Descolei um vinho. Fiz uma fogueirinha na praia. Chega a bonita. Impressiono com meu repertório de conhecimentos inúteis. Conquista quase efetivada. Eis que aparece a Juju, Maysa e Raulzito. Clima romântico vai pro brejo. Recomeça a sonzeira doida com Lô Borges, passa por Beto Guedes e segue com 14 Bis: “O planeta sonho será a Terra, a harmonia será a Terra...” . Nesta hora, minha querida Marisa deu uma desculpa qualquer, saiu do iglu-cabana de plástico-lona. E não voltou mais. Pouco tempos depois a vi num lance de respiração boca-a-boca, com um cara. Que, provavelmente, estava se afogando e a moça foi socorrê-lo.

A noite passando, a bebedeira chegando. Apareceu a Carla. Colega da faculdade. Cursava publicidade. Segundo boas línguas, ia com minha fachada. Última provável esperança de me dar bem naquele reveillon. Caminhando na madrugada pela praia. Quase mãos dadas. Noite estrelada, sem as chuvas, os relâmpagos e as trovejadas. Sentamos numas pedras, canto da praia, point conhecido como Cachadaço. Estimulado pela álcool, crio coragem para o beijo. Eis que de repente, não mais que de repente, a galera chega - de novo. O do violão na frente, o coro atrás: “ Eu vejo um novo começo de era, de gente fina elegante sincera, com habilidade para dizer mais sim do que não...não, não”. E não, não mesmo. Carlinha me deixa de lado, se encanta com o violeiro. Fiquei a ver navios, agora sim, literalmente. Passava um catamarã logo ali em frente.

Desisto de qualquer empreitada mulherística. No more galinhagens infrutíferas. Encosta a Juju, cochicha no meu ouvido: “Minha irmã tá dormindo na barraca. Busca ela e traz para cá”. E lá fui, gentil, atrás da minha amiga. E tava lá mesmo, no nosso iglu-plástico-bolha. Garrafa de Peterlongo na mão. Brindes vários, Solange me tasca um beijão. Comenta a moça: “A Ju fez tudo certinho, né? Te atrapalhou a noite toda até fazer você vir aqui ficar comigo”.

Seguimos a celebration lá mesmo, juntamos nossos sacos de dormir. E ao longe se ouvia uma galera cantando: “..ela demonstrou tanto prazer em estar em minha companhia, e eu experimentei uma sensação que até então não conhecia...”. Agora sim. Nunca Lulu Santos caiu tão bem na minha trilha sonora. Aquele Ano Novo realmente prometia.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Ano Novo em Trindade

Muitos anos atrás, chegar à praia de Trindade (divisa de Ilha Bela/Parati) era um tormento. Uma serra íngreme, sem asfalto. Mas, fomos lá. Eu e duas amigas, Solange e Maysa, e a irmãzinha da Solange: a Juliana, de uns 12 anos, no máximo. Acampar no Ano Novo, nosso objetivo.

Depois de um engarrafamento-monstro na Dutra, quase chegando lá, fomos parados num posto da Polícia Rodoviária. Devia ser por volta das oito da noite. Juliana, a adolescente esperta e inconsequente, a incandescente tripulante do veículo, cochilava no banco traseiro do veículo. Súbito, acorda e vê aquele “chips” tupi-guarani pedindo documentos. Intrépida, vai falando, a guria-malandragem: “O CARA TÁ QUERENDO GRANA. NÃO VAMOS DAR NADA”. E o Erik Estrada, o Poncherello da Rio-Santos: “Como é que é, mocinha?”. Eu, cara-de-pau, virei-me para a jovem Juliana: “Menina, já te disse que acabou a laranjada! Toma uma água mesmo”. Depois de revirar nossa condução de cima a baixo, documentos em ordem, liberados para seguir a jornada.

Escuridão danada na rodovia, passamos a entrada de Trindade, saímos na aprazível Parati. Resolvemos passar o Reveillon na cidade histórica praiana. Nenhum camping disponível. Um “local”, tipo boa praça, ofereceu sua residência como pousada. O sujeito só teria que tirar os familiares do bangalô e a gente usufruía do domicílio. Imagina nossa cara tendo que desalojar o pessoal ali em pleno Ano Novo. Nem perguntei para onde ela ia levar seus familiares. Tudo bem que iam ganhar uns trocos, mas...Operação, bater em retirada.

Voltamos rumo a Trindade. Achamos a escondida entrada para a famosa praia do litoral Norte paulista. Era quase onze da noite – 23h. Mal pegamos o caminho da alegria, o valente Fiat Uno da Solange atola. Todos os carros do trajeto, aliás. Uma fila enorme de veículos chafurdando na lama. Sem choro, nem vela. Bate as 12 badaladas. Ano novo!!!! A galera toda do barro acende os faróis, uma espécie de Woodstock com Águas Claras, champanhota quente para o povo. Uísques para uns. Cachaça para os menos abastados. Cerveja morna para a geral. Uns camaradas num furgão ligam o som. Primeiro: Rock´n roll dammation, do AC/DC. Depois Celebration, do Kool and the Gang...prá entrar no clima festivo.



No meio da festa do barro, embriagado, sob a luz das estrelas, a intenção escusa era roubar um beijo da Maysa. Só tentei, porque a jovem Juliana resolveu grudar em mim naquele lamaçal. “Tio, fica comigo aqui”, “tio, me dá coca-cola”, “tio, os borrachudos tão me atacando”, dizia a pré-adolescente. Nem meu delicado: “se vira piralha. Também estão me picando, minha roupa está cheia de lama e já tô meio bêbado...ah, sim, e tio é a puta que o pariu”. Nada disso fez a mocinha sair do caminho. Pelo contrário, segurou meu braço e disparou: “Vamos cantar aquela do comercial - 'Este ano quero paz no meu coração, se quiser ter um amigo'....”.

Enquanto o “tio” aqui cantava a musiquinha com a “sobrinha”, uns surfistas apareceram. Um deles, sem muita demora e pra minha frustração, pegou fácil a Maysa. Sinal que o ano – não lembro exatamente qual, mas devia ser entre 1990 e 2000 - não ia começar bem pro bacana aqui. E ainda tive que ouvir de um daqueles Beach Boys: “Olha o manezão ali azarando a pivete. Ridículo!!!!”. Tudo bem, eu podia ser mesmo ser um manezão, mas o “tio” aqui não estava “azarando a pivete”. Muito pelo contrário (continua).

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Memórias de uma infância psicodélica



Comentário do Cachorro Cansado: Uma das coisas boas em envelhecer com uma certa dignidade, é relembrar das coisas boas da infância. O seriado do agente secreto Lancelot Link é uma delas. Junto com sua namorada Mata Hairi (uma espécie de agente 86 e 99, versão chimpanzé), Lancelot enfrentava os maiores vilões (tudo uma macacada louca e psicodélica da virada dos anos 60 para 70): O Barão Von Butcher e seu chofer Creto, Dragon Woman, Ali Assa Seen (Assassino..eheheh). Nem sei dizer a razão, mas hoje acordei e lembrei dessa macacada que animava minhas tardes infantis.